Crônicas da maternidade IV

— Filha, fala assim, ó: ma-mãe.

— Papa.

— Não, veja bem, estou pedindo para você falar: ma-mãe.

— Papa.

— Mamãe.

— Papa.

— E vovó? Fala: vo-vó.

— Papa.

— Vovó.

— Papa.

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O retorno do tio

Crédito: Arquivo pessoal de Liniane Haag Brum

Crédito: Arquivo pessoal de Liniane Haag Brum

Ela não tinha completado nem um ano quando o viu pela primeira e última vez. Ele era seu padrinho. Entrou na igreja, jogou a água benta em sua tez e se foi. Para sempre.

Ela cresceu em meio a murmúrios a respeito do tio. Nem ela, nem os primos, se atreviam a perguntar se algum dia ele voltaria. Quem ultrapassasse esta linha fina, sutil, teria o silêncio como resposta.

Foram necessários quarenta anos para que as palavras preenchessem este vazio escuro de décadas. Palavras que tomaram forma por meio da escrita e estão reunidas no livro Antes do passado, de Liniane Haag Brum.

Liniane é a sobrinha que resolveu ir atrás do tio. E contar a sua história. Ou seria a história dela? A história de uma busca que sempre existiu, que está incrustada em suas entranhas?

O tio, Cilon Cunha Brum, é tido como desaparecido político da época do regime militar (1964-1985). Isto é, está morto. Foi executado pelas forças de repressão — uma notícia que nenhuma autoridade foi levar para a família dele, no Rio Grande do Sul. Até hoje os parentes aguardam o seu corpo – o que restou dele – para enterrá-lo de forma digna.

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Crédito: Arquivo pessoal de Liniane Haag Brum

Cilon vinha de uma família de classe média abastada e, em algum momento de sua vida, se viu obrigado a escolher entre dois caminhos que já se mostravam tão distintos, tão conflitantes, que não havia mais como levá-los de forma concomitante – de um lado, a família e o emprego, de outro, a militância política no PC do B (Partido Comunista do Brasil).

Optou pelo último e, em 1971, foi mandado pelo partido para o norte do país, a uma região conhecida como Bico do Papagaio, na fronteira entre Pará, Maranhão e Tocantins. Lá, o PC do B planejava instalar as bases do que viria a ser uma guerrilha rural que, mais tarde, tomaria as cidades, com o objetivo de derrubar o regime e, posteriormente, transformar toda a estrutura da sociedade brasileira.

Crédito: Divulgação

Divulgação

Vocês já devem estar imaginando de qual episódio da história brasileira estou falando. A Guerrilha do Araguaia foi descoberta em 1971 pelo regime ditatorial e totalmente desarticulada em três expedições militares que duraram de 1972 a 1973. Na última delas, denominada Operação Sucuri, os efetivos receberam a ordem de não fazer prisioneiros.

Cilon foi executado a tiros e transformou-se em apenas mais um guerrilheiro cujos familiares vão ao Araguaia atrás de “restos mortais” – ossadas ou arcadas dentárias. Sua história, porém, ganhou um brilho todo especial no belíssimo relato de Liniane – além da busca que originou o livro, forte por si só, a afilhada revelou um talento maravilhoso para a escrita.

Se você não conhece nada sobre a Guerrilha do Araguaia, esta é uma boa maneira de saber mais sobre o assunto. Deixo aqui sugestões de outras duas obras atuais que li a respeito deste episódio e que também recomendo:

Mata! – o major Curió e as guerrilhas no Araguaia, de Leonencio Nossa

Araguaia – história de amor e de guerra, de Carlos Amorim

DISCLAIMER: As obras citadas foram adquiridas pela autora.

Crônicas da maternidade III

Já perdi a conta de quantas vezes a encaixei em meu peito para mamar. Mas, desta vez, é noite. Estou acomodada na cama, as pernas alongadas e o tronco reto, encostado em almofadas e travesseiros. Recebo-a em meus braços.

Ela começa a mamar. O leite materno, em sua face, parece o néctar dos deuses.

De repente, ela abre os olhos. Os olhos que, de dentro de mim, perscrutaram as minhas entranhas mais profundas. E que agora me olham como ninguém jamais me olhou.

Eu devolvo o olhar e uma sensação de medo e mistério invade o meu corpo: parece que aqueles olhos me conheciam desde tempos remotos. E que sabiam muito sobre mim. Mais do que eu mesma.

Mas como pode ser assim, já que ela é apenas uma recém-nascida?

Dia Nacional da Luta Antimanicomial

Hoje, 18 de Maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Para celebrar a data, publico no blog uma das várias (e maravilhosas) fotos feitas pela amiga Alice Arida em nosso trabalho pelo sul do Pará. Vocês poderão encontrar mais destas imagens tocantes no livro que estou escrevendo (e que, espero, será lançado no próximo semestre).

caps

Esta fotografia mostra os pacientes do Caps de Tucuruí dentro da kombi “Doido é Tu”, a kombi a serviço do Caps. Eles estavam indo para uma apresentação de quadrilha de festa junina em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF). Foi muito legal vê-los dançarem para as crianças.

Sobre Alice

Alice tem um site onde “expõe” algumas de suas fotografias. Clique aqui para ver.

Sobre a Luta Antimanicomial

O movimento de Luta Antimanicomial surgiu no Brasil no final da década de 1970. Ele foi consequência de um movimento mundial iniciado pelo psiquiatra Franco Basaglia, sobre quem já falei aqui no blog.

A partir da década de 1980, no Brasil, o movimento ganhou força com uma pauta bem definida: o fechamento de hospitais psiquiátricos e a sua substituição progressiva por serviços territoriais de assistência à pessoa com transtorno mental.

Foi nesse contexto que surgiram os Caps, os Centros de Atenção Psicossocial. No meu livro, eu conto a história do nascimento do Caps Casa Machado de Assis, o Caps de Tucuruí, no sul do Pará.

É uma história muito bonita que, infelizmente, não se espalhou pelo Brasil. Ainda hoje, há muito estigma e preconceito quando o assunto é transtorno mental. E não sejamos ingênuos: hospitais psiquiátricos ainda existem.

Por isso, ressalto a importância dessa data aqui no blog.

E que soltemos o louco que existe dentro de nós!

Crônicas da maternidade II

Doze meses completados em abril e nada de dar os primeiros passos. Por onde passamos, as pessoas perguntam:

— Ela já está andando?

Não. Aproveita, dizem alguns. Outros preferem pegá-la pelos braços — levantados, como se todos andássemos assim — e percorrer toda a sala com ela entre as pernas, cantando:

— Dandá, dan-dandá.

É preciso estimulá-la, explicam.

Eu apenas observo. E, observando-a, percebi que ela é o seu próprio estímulo — não precisa que outros a estimulem. Percebi também que ela respeita o seu próprio tempo.

Por que não aprendemos com os bebês?

Notícias do livro na ABE e reestreia do blog

O internauta estará se perguntando por que passei tanto tempo sem postar. A resposta é simples, porém complexa: nesses quase dois anos, eu gestei um bebê por nove meses, reformei um apartamento, me mudei com meu namorado (agora marido), depois pari, atravessei o pós-parto e empreendi o longo processo de voltar a trabalhar, agora com uma bebezinha em casa. Acho que o internauta pode me desculpar, né? Rsrs.

Bem, desde novembro do ano passado estou firme e forte escrevendo meu livro sobre saúde mental no sul do Pará. Devo terminar a escrita em dois meses, acredito. E é por isso que reestreio este blog, pois tenho uma notícia muito legal sobre o meu livro para compartilhar aqui.

Recentemente, fui convidada pelo presidente da ABE, a Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural, a escrever um pequeno post no blog deles sobre o meu trabalho. Fiquei muito contente com o convite do Marcos de Noronha. Segue o post, aqui. No texto, vocês poderão saber um pouco mais sobre o meu trabalho. Espero que gostem!

No mais, acho que perceberam que eu mudei a cara do blog. Ele não se chama mais Terra e Asfalto. Agora se chama Minhas itinerâncias — unindo o gosto pela Amazônia, saúde mental e maternidade.

Decidi por este nome, pois, nos últimos dois anos, minhas áreas de interesse convergiram para estes três assuntos. Fui para o Pará, estou pesquisando o trabalho de um psiquiatra e agora sou mãe. Faz mais sentido para mim, e espero que para vocês também. 🙂

E, para quem não sabe, estreei um blog para compartilhar minhas receitas culinárias. O Panelas de Gaya surgiu do meu amor pela cozinha, que só aumenta a cada dia que passa.