Notícias do livro na ABE e reestreia do blog

O internauta estará se perguntando por que passei tanto tempo sem postar. A resposta é simples, porém complexa: nesses quase dois anos, eu gestei um bebê por nove meses, reformei um apartamento, me mudei com meu namorado (agora marido), depois pari, atravessei o pós-parto e empreendi o longo processo de voltar a trabalhar, agora com uma bebezinha em casa. Acho que o internauta pode me desculpar, né? Rsrs.

Bem, desde novembro do ano passado estou firme e forte escrevendo meu livro sobre saúde mental no sul do Pará. Devo terminar a escrita em dois meses, acredito. E é por isso que reestreio este blog, pois tenho uma notícia muito legal sobre o meu livro para compartilhar aqui.

Recentemente, fui convidada pelo presidente da ABE, a Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural, a escrever um pequeno post no blog deles sobre o meu trabalho. Fiquei muito contente com o convite do Marcos de Noronha. Segue o post, aqui. No texto, vocês poderão saber um pouco mais sobre o meu trabalho. Espero que gostem!

No mais, acho que perceberam que eu mudei a cara do blog. Ele não se chama mais Terra e Asfalto. Agora se chama Minhas itinerâncias — unindo o gosto pela Amazônia, saúde mental e maternidade.

Decidi por este nome, pois, nos últimos dois anos, minhas áreas de interesse convergiram para estes três assuntos. Fui para o Pará, estou pesquisando o trabalho de um psiquiatra e agora sou mãe. Faz mais sentido para mim, e espero que para vocês também. 🙂

E, para quem não sabe, estreei um blog para compartilhar minhas receitas culinárias. O Panelas de Gaya surgiu do meu amor pela cozinha, que só aumenta a cada dia que passa.

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Homenagem a Franco Basaglia

Franco Basaglia

Franco Basaglia. Foto: Reprodução

Franco Basaglia (1924-1980) foi um revolucionário. Para quem não sabe, ele foi o psiquiatra italiano que iniciou o movimento de abertura de manicômios na década de 1970, influenciando vários países pelo mundo. Suas práticas chegaram ao Brasil e foram fundamentais para o movimento de reforma psiquiátrica, que culminou na Lei Paulo Delgado, de 2001, e na formação de várias entidades que buscam uma sociedade sem manicômios.

O trabalho de Basaglia em manicômios começou na província de Gorizia, mas foi no município de Trieste onde ele conseguiu, por uma série de fatores políticos, econômicos e sociais, abrir a instituição. Sua prática não era apenas técnica, isto é, ele não pretendia apenas destruir o manicômio e criar novas estruturas de apoio ao “doente mental”. Sua vontade ia mais além – ele queria mostrar à sociedade as contradições dela mesma. De que forma?

Há muitas. Uma delas é devolvendo os loucos às ruas e fazendo os moradores perceberem que os problemas desses loucos eram os mesmos que os seus. Os loucos queriam casa, comida, trabalho, família, amigos. Então, por que estavam internados – eu diria presos – no  hospício? Vê-se que o problema do manicômio é muito mais político do que médico. O manicômio não existe para curar, mas para controlar.

Li recentemente um livro de Basaglia, A psiquiatria alternativa: contra o pessimismo  da razão, o otimismo da prática, que reúne uma série de conferências que ele deu quando veio ao Brasil, em 1979. É um livro fascinante, por isso decidi reproduzir aqui alguns trechos da fala dele, que era um psiquiatra inconformado, um homem que não sabia atuar de outra maneira a não ser como ser humano. Em outras palavras: não era doutor, era médico.

Com vocês, Basaglia:

“Quando o psiquiatra entra no manicômio, encontra uma sociedade bem definida: de um lado, os loucos pobres; de outro, os ricos, a classe dominante com os meios para tratar os pobres doentes loucos.”

“Eu não vejo outra finalidade no manicômio senão a de internar uma pessoa para garantir a segurança da sociedade.”

“Vivemos numa sociedade que se parece com um manicômio, e estamos dentro desse manicômio, somos os internados e lutamos pela libertação.”

“Quando o médico aceita a contestação, quando ele aceita ser um dos polos da dialética, aí a medicina e a psiquiatria se tornam libertadoras.”

“Vimos que, a partir do momento em que dávamos uma resposta a um pobre internado, ele mudava completamente sua posição. Tornava-se não mais um louco, mas um homem com quem podíamos nos relacionar.”

“Quando levantávamos o problema de dar alta a uma pessoa pobre que não tinha dinheiro, não tinha casa e nem família, muitas pessoas percebiam que estavam nessas mesmas condições: sua situação era igual à do doente mental.”

“Nós salientamos hoje que cada situação que nos é apresentada é uma crise vital, e não uma esquizofrenia, uma situação institucionalizada, um diagnóstico.”

“Eu não sei o que é loucura.”

“Creio que uma das principais prevenções da loucura e da doença mental é a luta contra a miséria. E acho muito difícil que em um bairro pobre se saiba quem é louco e quem não é louco.”

Mil vozes

Há cinco anos, o Brasil perdia Austregésilo Carrano. Morreu aos 51 anos este dramaturgo e escritor, vítima de um câncer cuja origem provável devia estar nos tantos e tantos de cigarros fumados diariamente. Mas sua causa de morte bem poderia ter sido outra, em um tempo muito anterior ao ano de 2008.

austryAos 17 anos, Austry, como era então conhecido, vivia a rebeldia de sua adolescência nas ruas de Curitiba, na companhia dos amigos e das gatinhas; de vez em quando, dava os seus “pegas”. O ano era 1974 e o país vivia em plena ditadura militar. Não havia ainda o perigo da cocaína e do crack, os juízos morais da sociedade recaíam sobre a maconha. “Maconheiro mata a mãe para conseguir a droga”, eram as manchetes dos jornais.

Foi então que o pai de Austry descobriu, na mochila do filho, um pacotinho da erva, e, mais por ignorância do que por má fé, seguiu os
conselhos de um amigo policial e internou o menino em um hospital psiquiátrico – única opção de “tratamento” em uma época na qual o debate sobre drogas era tabu.

Foram três anos de passagens por quatro instituições de recluso destinadas aos chamados “doentes mentais”. Austry nada tinha de síndromes de loucura, mas foi submetido a eletrochoques, castigos e outros “tratamentos” para supostamente curar viciados.

À beira da morte, sobreviveu.

E contou sua história no contundente “Canto dos Malditos”, livro que abalou estruturas e chocou a todos que o leram. Pela primeira vez, um ex-interno falava, levantava a cara e a voz, contra as atrocidades cometidas nos manicômios. Um mês após sua publicação, em março de 1990, já em plena democracia, a obra foi censurada. Carrano, que também foi o primeiro ex-interno a mover uma ação indenizatória contra médicos psiquiatras por erros de diagnóstico e tratamentos torturantes, vendia os exemplares nas ruas.

Um destes caiu nas mãos na cineasta Laís Bodanzky. E, em 2000, a trajetória de Carrano, que foi e continua sendo a trajetória de milhares de brasileiros, chegou às telas de cinema, no premiadíssimo “Bicho de Sete Cabeças”, estrelado por Rodrigo Santoro, Othon Bastos e Cássia Kiss.

Tentei comprar tanto o livro quanto o filme, mas, para minha infelicidade, estão esgotados no fornecedor.