Crônicas da maternidade IV

— Filha, fala assim, ó: ma-mãe.

— Papa.

— Não, veja bem, estou pedindo para você falar: ma-mãe.

— Papa.

— Mamãe.

— Papa.

— E vovó? Fala: vo-vó.

— Papa.

— Vovó.

— Papa.

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Crônicas da maternidade III

Já perdi a conta de quantas vezes a encaixei em meu peito para mamar. Mas, desta vez, é noite. Estou acomodada na cama, as pernas alongadas e o tronco reto, encostado em almofadas e travesseiros. Recebo-a em meus braços.

Ela começa a mamar. O leite materno, em sua face, parece o néctar dos deuses.

De repente, ela abre os olhos. Os olhos que, de dentro de mim, perscrutaram as minhas entranhas mais profundas. E que agora me olham como ninguém jamais me olhou.

Eu devolvo o olhar e uma sensação de medo e mistério invade o meu corpo: parece que aqueles olhos me conheciam desde tempos remotos. E que sabiam muito sobre mim. Mais do que eu mesma.

Mas como pode ser assim, já que ela é apenas uma recém-nascida?

Crônicas da maternidade II

Doze meses completados em abril e nada de dar os primeiros passos. Por onde passamos, as pessoas perguntam:

— Ela já está andando?

Não. Aproveita, dizem alguns. Outros preferem pegá-la pelos braços — levantados, como se todos andássemos assim — e percorrer toda a sala com ela entre as pernas, cantando:

— Dandá, dan-dandá.

É preciso estimulá-la, explicam.

Eu apenas observo. E, observando-a, percebi que ela é o seu próprio estímulo — não precisa que outros a estimulem. Percebi também que ela respeita o seu próprio tempo.

Por que não aprendemos com os bebês?