Dia Nacional da Luta Antimanicomial

Hoje, 18 de Maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Para celebrar a data, publico no blog uma das várias (e maravilhosas) fotos feitas pela amiga Alice Arida em nosso trabalho pelo sul do Pará. Vocês poderão encontrar mais destas imagens tocantes no livro que estou escrevendo (e que, espero, será lançado no próximo semestre).

caps

Esta fotografia mostra os pacientes do Caps de Tucuruí dentro da kombi “Doido é Tu”, a kombi a serviço do Caps. Eles estavam indo para uma apresentação de quadrilha de festa junina em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF). Foi muito legal vê-los dançarem para as crianças.

Sobre Alice

Alice tem um site onde “expõe” algumas de suas fotografias. Clique aqui para ver.

Sobre a Luta Antimanicomial

O movimento de Luta Antimanicomial surgiu no Brasil no final da década de 1970. Ele foi consequência de um movimento mundial iniciado pelo psiquiatra Franco Basaglia, sobre quem já falei aqui no blog.

A partir da década de 1980, no Brasil, o movimento ganhou força com uma pauta bem definida: o fechamento de hospitais psiquiátricos e a sua substituição progressiva por serviços territoriais de assistência à pessoa com transtorno mental.

Foi nesse contexto que surgiram os Caps, os Centros de Atenção Psicossocial. No meu livro, eu conto a história do nascimento do Caps Casa Machado de Assis, o Caps de Tucuruí, no sul do Pará.

É uma história muito bonita que, infelizmente, não se espalhou pelo Brasil. Ainda hoje, há muito estigma e preconceito quando o assunto é transtorno mental. E não sejamos ingênuos: hospitais psiquiátricos ainda existem.

Por isso, ressalto a importância dessa data aqui no blog.

E que soltemos o louco que existe dentro de nós!

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Homenagem a Franco Basaglia

Franco Basaglia

Franco Basaglia. Foto: Reprodução

Franco Basaglia (1924-1980) foi um revolucionário. Para quem não sabe, ele foi o psiquiatra italiano que iniciou o movimento de abertura de manicômios na década de 1970, influenciando vários países pelo mundo. Suas práticas chegaram ao Brasil e foram fundamentais para o movimento de reforma psiquiátrica, que culminou na Lei Paulo Delgado, de 2001, e na formação de várias entidades que buscam uma sociedade sem manicômios.

O trabalho de Basaglia em manicômios começou na província de Gorizia, mas foi no município de Trieste onde ele conseguiu, por uma série de fatores políticos, econômicos e sociais, abrir a instituição. Sua prática não era apenas técnica, isto é, ele não pretendia apenas destruir o manicômio e criar novas estruturas de apoio ao “doente mental”. Sua vontade ia mais além – ele queria mostrar à sociedade as contradições dela mesma. De que forma?

Há muitas. Uma delas é devolvendo os loucos às ruas e fazendo os moradores perceberem que os problemas desses loucos eram os mesmos que os seus. Os loucos queriam casa, comida, trabalho, família, amigos. Então, por que estavam internados – eu diria presos – no  hospício? Vê-se que o problema do manicômio é muito mais político do que médico. O manicômio não existe para curar, mas para controlar.

Li recentemente um livro de Basaglia, A psiquiatria alternativa: contra o pessimismo  da razão, o otimismo da prática, que reúne uma série de conferências que ele deu quando veio ao Brasil, em 1979. É um livro fascinante, por isso decidi reproduzir aqui alguns trechos da fala dele, que era um psiquiatra inconformado, um homem que não sabia atuar de outra maneira a não ser como ser humano. Em outras palavras: não era doutor, era médico.

Com vocês, Basaglia:

“Quando o psiquiatra entra no manicômio, encontra uma sociedade bem definida: de um lado, os loucos pobres; de outro, os ricos, a classe dominante com os meios para tratar os pobres doentes loucos.”

“Eu não vejo outra finalidade no manicômio senão a de internar uma pessoa para garantir a segurança da sociedade.”

“Vivemos numa sociedade que se parece com um manicômio, e estamos dentro desse manicômio, somos os internados e lutamos pela libertação.”

“Quando o médico aceita a contestação, quando ele aceita ser um dos polos da dialética, aí a medicina e a psiquiatria se tornam libertadoras.”

“Vimos que, a partir do momento em que dávamos uma resposta a um pobre internado, ele mudava completamente sua posição. Tornava-se não mais um louco, mas um homem com quem podíamos nos relacionar.”

“Quando levantávamos o problema de dar alta a uma pessoa pobre que não tinha dinheiro, não tinha casa e nem família, muitas pessoas percebiam que estavam nessas mesmas condições: sua situação era igual à do doente mental.”

“Nós salientamos hoje que cada situação que nos é apresentada é uma crise vital, e não uma esquizofrenia, uma situação institucionalizada, um diagnóstico.”

“Eu não sei o que é loucura.”

“Creio que uma das principais prevenções da loucura e da doença mental é a luta contra a miséria. E acho muito difícil que em um bairro pobre se saiba quem é louco e quem não é louco.”