Dia Nacional da Luta Antimanicomial

Hoje, 18 de Maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Para celebrar a data, publico no blog uma das várias (e maravilhosas) fotos feitas pela amiga Alice Arida em nosso trabalho pelo sul do Pará. Vocês poderão encontrar mais destas imagens tocantes no livro que estou escrevendo (e que, espero, será lançado no próximo semestre).

caps

Esta fotografia mostra os pacientes do Caps de Tucuruí dentro da kombi “Doido é Tu”, a kombi a serviço do Caps. Eles estavam indo para uma apresentação de quadrilha de festa junina em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF). Foi muito legal vê-los dançarem para as crianças.

Sobre Alice

Alice tem um site onde “expõe” algumas de suas fotografias. Clique aqui para ver.

Sobre a Luta Antimanicomial

O movimento de Luta Antimanicomial surgiu no Brasil no final da década de 1970. Ele foi consequência de um movimento mundial iniciado pelo psiquiatra Franco Basaglia, sobre quem já falei aqui no blog.

A partir da década de 1980, no Brasil, o movimento ganhou força com uma pauta bem definida: o fechamento de hospitais psiquiátricos e a sua substituição progressiva por serviços territoriais de assistência à pessoa com transtorno mental.

Foi nesse contexto que surgiram os Caps, os Centros de Atenção Psicossocial. No meu livro, eu conto a história do nascimento do Caps Casa Machado de Assis, o Caps de Tucuruí, no sul do Pará.

É uma história muito bonita que, infelizmente, não se espalhou pelo Brasil. Ainda hoje, há muito estigma e preconceito quando o assunto é transtorno mental. E não sejamos ingênuos: hospitais psiquiátricos ainda existem.

Por isso, ressalto a importância dessa data aqui no blog.

E que soltemos o louco que existe dentro de nós!

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Memória viva de um passado recente*

“A ausência é um estar em mim”, já dizia Drummond. Ela não pode ser roubada, usurpada, violada, machucada, espancada, torturada. Não desaparece. Não morre.

Gustavo Germano preferiu outro poeta, o inglês John Berger. “O verdadeiro conteúdo de uma / fotografia é invisível. Porque / não deriva de uma relação com / a forma, mas sim com o tempo.” Tais palavras encontram um fino sentido na obra do fotógrafo argentino.

Há pelo menos nove anos Germano se dedica a um trabalho de resgate da memória coletiva sul-americana. Ele, que é uma vítima indireta da ditadura militar argentina (1976-1983), logrou unir este componente pessoal com a paixão pela fotografia. O resultado está na série de fotos “Ausências”, que já ganhou mostra na Argentina e, no Brasil, esteve em exposição no prédio do Arquivo Público do Estado de São Paulo até abril. Veja aqui o site do fotógrafo.

gustavo

Vítima indireta da ditadura argentina, Gustavo Germano (1º à esq.) também fez foto com os irmãos

Dupla imagem

Em 1976, Germano perdeu Eduardo, um de seus três irmãos, levado pela ditadura aos 18 anos. Caçula, Gustavo tinha então 12 anos. Trinta anos depois, já fotógrafo, ele começou a contatar famílias de mortos e desaparecidos pelo regime militar em busca de fotos antigas, de arquivo pessoal, onde a vítima aparecia. Sua ideia era compor a mesma foto, no mesmo local, e, desta vez, sem a pessoa amada.

A princípio, foram feitas e expostas imagens de famílias argentinas. Com o passar do tempo, veio a vontade de ampliar o trabalho. Há dois anos, Germano passou a contatar famílias brasileiras, cujas fotografias compõem a maior parte da exposição na capital paulista. E ele sente que ainda não concluiu sua tarefa. “Gostaria de realizar séries ampliatórias e complementares entre si nos outros países do Cone Sul que fizeram parte da Operação Condor, como Chile, Paraguai, Uruguai”, diz ele.

Somos todos irmãos

Na Argentina, Germano trabalhou com 15 famílias, e, no Brasil, com 12. Ele chegou a elas por meio de associações de direitos humanos e de parentes de mortos e desaparecidos. No caso brasileiro, o fotógrafo ainda contou com a colaboração da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

“Por meio deles nós fizemos todo esse longo trabalho de contatar os familiares, indagar, encontrar fotografias que pudessem ser refeitas, tanto na parte técnica quanto na operativa, já que todas as pessoas precisavam concordar em estar na imagem”, conta.

Nesse processo, não houve distância que o intimidasse. Germano percorreu o Brasil em busca de histórias familiares como a sua, e as encontrou em cidades tão afastadas quanto Recife, Belo Horizonte e São Leopoldo (RS).

O fato de ser estrangeiro em uma terra de dimensões continentais tampouco o acuou. “Minha aposta consistia em pensar que o central era me comunicar com outros familiares igualmente vítimas das ditaduras, e para isso não existe fronteiras. Somos todos irmãos”, afirma.

Mas o objetivo de seu trabalho não se restringe à memória das vítimas, diretas ou indiretas, dos regimes militares. O próprio fotógrafo o define de forma diferente. “Esta exposição pretende ajudar as pessoas a terem consciência do desaparecimento forçado, e que elas busquem esta compreensão por meio da emoção. A emoção te permite sentir uma empatia. Se você chega a um compromisso através da emoção, este compromisso é muito mais poderoso do que o firmado através da intelectualidade. É a aposta deste trabalho.”

E ela tem sido bem-sucedida. Germano já expôs mais de 40 vezes, em dez países (Argentina, Espanha, Itália, Alemanha, França, Suíça, Cuba, Colômbia, Chile, Uruguai e Brasil). Foi o seu jeito de encontrar e cumprir o compromisso com a verdade e a justiça na América do Sul.

*Este texto foi originalmente publicado na revista Clichetes. Você pode ver aqui: http://clichetes.com.br/memoria-viva-de-um-passado-recente/