O retorno do tio

Crédito: Arquivo pessoal de Liniane Haag Brum

Crédito: Arquivo pessoal de Liniane Haag Brum

Ela não tinha completado nem um ano quando o viu pela primeira e última vez. Ele era seu padrinho. Entrou na igreja, jogou a água benta em sua tez e se foi. Para sempre.

Ela cresceu em meio a murmúrios a respeito do tio. Nem ela, nem os primos, se atreviam a perguntar se algum dia ele voltaria. Quem ultrapassasse esta linha fina, sutil, teria o silêncio como resposta.

Foram necessários quarenta anos para que as palavras preenchessem este vazio escuro de décadas. Palavras que tomaram forma por meio da escrita e estão reunidas no livro Antes do passado, de Liniane Haag Brum.

Liniane é a sobrinha que resolveu ir atrás do tio. E contar a sua história. Ou seria a história dela? A história de uma busca que sempre existiu, que está incrustada em suas entranhas?

O tio, Cilon Cunha Brum, é tido como desaparecido político da época do regime militar (1964-1985). Isto é, está morto. Foi executado pelas forças de repressão — uma notícia que nenhuma autoridade foi levar para a família dele, no Rio Grande do Sul. Até hoje os parentes aguardam o seu corpo – o que restou dele – para enterrá-lo de forma digna.

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Crédito: Arquivo pessoal de Liniane Haag Brum

Cilon vinha de uma família de classe média abastada e, em algum momento de sua vida, se viu obrigado a escolher entre dois caminhos que já se mostravam tão distintos, tão conflitantes, que não havia mais como levá-los de forma concomitante – de um lado, a família e o emprego, de outro, a militância política no PC do B (Partido Comunista do Brasil).

Optou pelo último e, em 1971, foi mandado pelo partido para o norte do país, a uma região conhecida como Bico do Papagaio, na fronteira entre Pará, Maranhão e Tocantins. Lá, o PC do B planejava instalar as bases do que viria a ser uma guerrilha rural que, mais tarde, tomaria as cidades, com o objetivo de derrubar o regime e, posteriormente, transformar toda a estrutura da sociedade brasileira.

Crédito: Divulgação

Divulgação

Vocês já devem estar imaginando de qual episódio da história brasileira estou falando. A Guerrilha do Araguaia foi descoberta em 1971 pelo regime ditatorial e totalmente desarticulada em três expedições militares que duraram de 1972 a 1973. Na última delas, denominada Operação Sucuri, os efetivos receberam a ordem de não fazer prisioneiros.

Cilon foi executado a tiros e transformou-se em apenas mais um guerrilheiro cujos familiares vão ao Araguaia atrás de “restos mortais” – ossadas ou arcadas dentárias. Sua história, porém, ganhou um brilho todo especial no belíssimo relato de Liniane – além da busca que originou o livro, forte por si só, a afilhada revelou um talento maravilhoso para a escrita.

Se você não conhece nada sobre a Guerrilha do Araguaia, esta é uma boa maneira de saber mais sobre o assunto. Deixo aqui sugestões de outras duas obras atuais que li a respeito deste episódio e que também recomendo:

Mata! – o major Curió e as guerrilhas no Araguaia, de Leonencio Nossa

Araguaia – história de amor e de guerra, de Carlos Amorim

DISCLAIMER: As obras citadas foram adquiridas pela autora.

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Ilha do Marajó

Sabe aquela ilha enorme localizada acima do mapa do Brasil? Pois é, ela se chama Marajó, eu estive por lá nesta semana e quero contar um pouquinho deste canto do nosso país. A Ilha do Marajó pertence ao estado do Pará e é o maior arquipélago fluvio-marítimo do mundo, com 2.500 ilhas. Apenas 16 municípios povoam o arquipélago, que contabiliza 400 mil habitantes. Foi este o destino escolhido por mim e meu namorado para a nossa primeira viagem a dois.

Chegamos a Belém e, na capital paraense, descobrimos que saíam duas balsas por dia para o Marajó – uma às 6h30 e outra às 14h30. Pegamos a primeira e, depois de quatro horas vendo só rio e floresta — delícia! –, chegamos ao porto de Camará. Lá, várias vans esperavam os passageiros. Subimos em uma que nos levou até a porta de nossa pousada, em Soure.

Soure tem 20 mil habitantes e muitas ruas esburacadas – tanto de terra quanto de asfalto. Os principais meios de transporte são bicicletas e motos. Nós alugamos uma moto por dois dias e nos surpreendemos com o preço que pagamos. É compreensível em um município de ruas pequenas e desorganizadas: todas são de mão dupla e não é raro que cruzamentos sejam desrespeitados.

No primeiro dia, alugamos duas bikes (ruins, que nos deram uma canseira) e fomos à praia de Barra Velha. Lindíssima, e vazia – claro, estávamos em plena segunda-feira. Fomos atendidos por uma mulher, a Dona Ana, que tinha uma barraca na praia. Muito simpática desde o princípio, a Dona Ana e sua família nos acolheram ao fim do dia dentro da barraca, pois caiu uma chuva torrencial. Pudemos, então, conversar com seu marido, sua filha, e um casal de amigos deles.

Nesse dia, vimos dois arcos-íris. Também conhecemos a casa de Dona Ana e sua família, que ficava perto da praia da Barra Velha. E tivemos nosso primeiro contato com a hospitalidade e a simpatia dos marajoaras, uma marca registrada que se confirmaria nos próximos dias.

Segundo dia no Marajó, fomos de moto conhecer a praia do Pesqueiro, que ficava a uns 10 km da pousada onde estávamos. A praia era mais linda ainda que a do dia anterior, com vasta areia, água transparente e muitas piscinas naturais. Só curtição. No caminho para o Pesqueiro, passamos pela Fazenda São Jerônimo, onde fizemos um passeio no dia seguinte.

O passeio consistia em conhecer uma praia deserta e lindíssima, com piscinas naturais e vegetação tropical; passar pelo mangue, com árvores altíssimas mostrando parte de suas raízes; andar de barco pelo igarapé; e montar em búfalos. Por que búfalos? Ora, a Ilha do Marajó possui o maior rebanho de búfalos do Brasil, são cerca de 400 mil cabeças, ou seja, 1 cabeça por habitante. A culinária marajoara não foge a essa tradição: o “filé marajoara” consiste em carne de búfalo com queijo de búfala. Uma delícia, por sinal.

No último dia, fomos conhecer Salvaterra, município separado de Soure por um rio, o Paracauari. Uma balsa faz o trajeto entre os dois – não há pontes, apesar da distância pequena. Não conseguimos aproveitar muito Salvaterra por conta da chuva, que começou às 15h e não parou mais. Pudemos apenas dar uma olhada na Praia Grande, a mais próxima do centro do vilarejo. Embora bonita, não ganha de Pesqueiro e Barra Velha.

Acredito que a Ilha do Marajó é um destino para aventureiros. É possível fazer uma viagem romântica, mas, se você está buscando conforto e infraestrutura com @ namorad@, não vá para lá para curtir a dois. Para nós deu certo, pois nenhum dos dois tem muita frescura. Mas passamos por perrengues que poderiam ser evitados em outros destinos.

Soure e Salvaterra, os principais municípios do Marajó, são precários na educação, saúde, mercado de trabalho e na prestação de serviços. Para quem quer conhecer esse Brasilzão e não tem medo de pôr o pé na lama (literalmente), é um destino que super recomendo. 😉