Carimbó e albinismo

No último mês, escrevi dois textos para a revista digital Clichetes.

Um deles é o perfil de Dona Onete, a vozinha paraense de 74 anos que se descobriu cantora depois de passar 25 anos da vida dando aulas de História. Na entrevista que fizemos (eu e a fotógrafa Alice Arida) com ela, ela nos contou um pouco sobre como recreava suas aulas para as crianças e sobre o seu sucesso atual. “Eles dizem que eu canto o amor, e é nisso que a juventude está atrás de mim.”

Leia aqui: A sabedoria paraense da rainha do carimbó chamegado

O outro texto diz respeito ao albinismo. Passei uma manhã conversando com Andreza Cavalli, que é albina do tipo 1, ou seja, com total despigmentação. Ela me contou sobre os percalços desta população invisível, o que dificulta a adoção de políticas públicas para eles. Apesar dos problemas e discriminações que passou e passa pela vida, Andreza tem um ótimo astral, só um milagre mesmo para tirar do rosto dela seu lindo sorriso.

Leia aqui: A vida em branco e branco

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Memória viva de um passado recente*

“A ausência é um estar em mim”, já dizia Drummond. Ela não pode ser roubada, usurpada, violada, machucada, espancada, torturada. Não desaparece. Não morre.

Gustavo Germano preferiu outro poeta, o inglês John Berger. “O verdadeiro conteúdo de uma / fotografia é invisível. Porque / não deriva de uma relação com / a forma, mas sim com o tempo.” Tais palavras encontram um fino sentido na obra do fotógrafo argentino.

Há pelo menos nove anos Germano se dedica a um trabalho de resgate da memória coletiva sul-americana. Ele, que é uma vítima indireta da ditadura militar argentina (1976-1983), logrou unir este componente pessoal com a paixão pela fotografia. O resultado está na série de fotos “Ausências”, que já ganhou mostra na Argentina e, no Brasil, esteve em exposição no prédio do Arquivo Público do Estado de São Paulo até abril. Veja aqui o site do fotógrafo.

gustavo

Vítima indireta da ditadura argentina, Gustavo Germano (1º à esq.) também fez foto com os irmãos

Dupla imagem

Em 1976, Germano perdeu Eduardo, um de seus três irmãos, levado pela ditadura aos 18 anos. Caçula, Gustavo tinha então 12 anos. Trinta anos depois, já fotógrafo, ele começou a contatar famílias de mortos e desaparecidos pelo regime militar em busca de fotos antigas, de arquivo pessoal, onde a vítima aparecia. Sua ideia era compor a mesma foto, no mesmo local, e, desta vez, sem a pessoa amada.

A princípio, foram feitas e expostas imagens de famílias argentinas. Com o passar do tempo, veio a vontade de ampliar o trabalho. Há dois anos, Germano passou a contatar famílias brasileiras, cujas fotografias compõem a maior parte da exposição na capital paulista. E ele sente que ainda não concluiu sua tarefa. “Gostaria de realizar séries ampliatórias e complementares entre si nos outros países do Cone Sul que fizeram parte da Operação Condor, como Chile, Paraguai, Uruguai”, diz ele.

Somos todos irmãos

Na Argentina, Germano trabalhou com 15 famílias, e, no Brasil, com 12. Ele chegou a elas por meio de associações de direitos humanos e de parentes de mortos e desaparecidos. No caso brasileiro, o fotógrafo ainda contou com a colaboração da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

“Por meio deles nós fizemos todo esse longo trabalho de contatar os familiares, indagar, encontrar fotografias que pudessem ser refeitas, tanto na parte técnica quanto na operativa, já que todas as pessoas precisavam concordar em estar na imagem”, conta.

Nesse processo, não houve distância que o intimidasse. Germano percorreu o Brasil em busca de histórias familiares como a sua, e as encontrou em cidades tão afastadas quanto Recife, Belo Horizonte e São Leopoldo (RS).

O fato de ser estrangeiro em uma terra de dimensões continentais tampouco o acuou. “Minha aposta consistia em pensar que o central era me comunicar com outros familiares igualmente vítimas das ditaduras, e para isso não existe fronteiras. Somos todos irmãos”, afirma.

Mas o objetivo de seu trabalho não se restringe à memória das vítimas, diretas ou indiretas, dos regimes militares. O próprio fotógrafo o define de forma diferente. “Esta exposição pretende ajudar as pessoas a terem consciência do desaparecimento forçado, e que elas busquem esta compreensão por meio da emoção. A emoção te permite sentir uma empatia. Se você chega a um compromisso através da emoção, este compromisso é muito mais poderoso do que o firmado através da intelectualidade. É a aposta deste trabalho.”

E ela tem sido bem-sucedida. Germano já expôs mais de 40 vezes, em dez países (Argentina, Espanha, Itália, Alemanha, França, Suíça, Cuba, Colômbia, Chile, Uruguai e Brasil). Foi o seu jeito de encontrar e cumprir o compromisso com a verdade e a justiça na América do Sul.

*Este texto foi originalmente publicado na revista Clichetes. Você pode ver aqui: http://clichetes.com.br/memoria-viva-de-um-passado-recente/

Gastronomia paraense*

Diz o senso comum que comida de brasileiro é arroz com feijão, pontualmente ao meio-dia, de preferência. Diz a lenda amazônica que a comida chora. Uma pequena esfera escura pende do alto de uma palmeira, 20 metros acima do solo, alimento para a raiz e o tronco fino e comprido, encravado em um pedaço de terra à beira do rio.

O rio, afluente de outro curso d’água, imiscui-se em uma intrincada rede que forma a maior bacia hidrográfica do planeta – trajetória que começa com uma gota de degelo em uma montanha perdida dos Andes e termina com o deságue, no oceano, de 20% da água doce do mundo.

A esfera escura também é uma gota num mar arroxeado que chega à noite ao porto de Belém, em enormes cestas carregadas por negros hercúleos, que não dormem. O ritual se repete desde tempos imemoriais. A capital do Pará é o eldorado por onde passa 87% da produção nacional da fruta que chora – o açaí.

Desta bolinha parecida com a jabuticaba, extrai-se o sumo que servirá de matéria-prima para a confecção do creme.

Creme fresquinho e acompanhado de peixe e farinha grossa de mandioca, como manda o costume. Para colher o açaí, os paraenses usam a peconha, uma espécie de cinto feito com as próprias folhas da palmeira e amarrado aos pés, para ajudar na subida da longa árvore. Uma vez em cima, é só arrancar o fruto e deixá-lo cair, escorregar, escorrer – o açaí chora, e de suas lágrimas sai o líquido que dá razão de sua existência.

Do choro da mandioca brava também desponta vida, e este é um ensinamento indígena que se perdeu no tempo. Quatro ou cinco dias, porém, são suficientes para fazer o tucupi, um molho ácido de cor amarelada extraído do tubérculo e parte integrante do cotidiano da culinária paraense.

Descasca-se e rala-se a mandioca, que é introduzida em um tipiti, um tipo de espremedor feito de palha trançada e usado para secar raízes. O líquido verte, em mais um ritual amazônico, e é colocado para descansar por alguns dias, processo que irá separar o amido – conhecido como goma – do molho. Neste ponto, um veneno está à espreita. O veneno do suco da mandioca brava. Ele só desaparece depois de horas fervendo no fogo, para dar origem ao tucupi.

Mas uma origem apenas não satisfaz. Reza a lenda indígena que Jacy (lua) e Iassytatassú (estrela d’alva) resolveram visitar Ibiapité (centro da terra), em uma certa madrugada. Deixaram então Ibacapuranga (céu bonito) e, após descansar sobre um Iupê Jaçanã (vitória-régia), começaram a baixar às profundezas. Quando se preparavam para descer o Ibibira (abismo), Caninana Tyba mordeu a face de Jacy, que, ao sentir a dor, derramou amargas lágrimas sobre uma plantação de mandioca.

Sua face ficou para sempre marcada, enquanto suas lágrimas penetraram no interior do tubérculo, misturando-se ao líquido interno. Foi então que nasceu a mandioca brava, da qual se extrai o tucupi. Com o passar do tempo, índias anciãs e sua sabedoria milenar descobriram que, ao expor o suco ao sol, destruía-se a força do veneno que correu dos olhos de Jacy e se impregnou na mandioca.

Tão intenso quanto o tucupi é o seu par inseparável, o jambu. Hortaliça conhecida como “agrião do Norte”, o jambu está presente em todas as mesas paraenses, mergulhado no molho feito da mandioca brava. Um completa o outro, pois, ao ser mastigada, esta folha verdinha, com aparência inocente, produz um efeito anestesiante instantâneo, que se alastra por toda a boca. Quem diminui o barato, sem cortá-lo por inteiro, é o tucupi.

Dizem as línguas maliciosas que o jambu é afrodisíaco. Outras línguas mais medicinais lembram seu poder de aliviar dores de dente e de garganta, sua força para combater febre e asma. Mas, para além de suas capacidades, a hortaliça é planta milenar, vista em inúmeros pratos típicos da região amazônica.

Combinada com tucupi, goma de tapioca e camarão seco, transforma-se no tacacá. Esta iguaria é servida espumando em uma cuia, e diz a tradição que deve-se tomá-la sob sol a pino. Sobrepõe-se, assim, o quente no quente.

Carne de pato é outro antigo acompanhamento para a dupla jambu e tucupi. O animal é amplamente consumido no Pará, desde antes do período colonial. Nesta época, era comum ver pessoas disputando um jogo que consistia em abater um pato amarrado a um toco de pau. Aquele que conseguisse decepar a cabeça da ave a levava para casa como premiação. Os que fracassavam em suas tentativas “pagavam o pato” ao vencedor.

Vem daí a expressão que significa “sofrer as consequências de algo”. Não sofria, porém, o felizardo que carregava a ave para casa para fazer um dos mais tradicionais pratos nortistas brasileiros – o pato no tucupi.

Floresce da terra o alimento do homem. Os pratos têm história, os ingredientes são lendas vivas e toda uma rica cultura permanece nas zonas sombrias e indefinidas de um senso comum que diz que comida de brasileiro é arroz com feijão. Como resposta, a lenda amazônica, imponente, lembra que, há tempos, o alimento chora.

* Este texto foi originalmente publicado na revista digital Clichetes. Veja aqui: http://clichetes.com.br/gastronomia-do-para/