Crônicas da maternidade III

Já perdi a conta de quantas vezes a encaixei em meu peito para mamar. Mas, desta vez, é noite. Estou acomodada na cama, as pernas alongadas e o tronco reto, encostado em almofadas e travesseiros. Recebo-a em meus braços.

Ela começa a mamar. O leite materno, em sua face, parece o néctar dos deuses.

De repente, ela abre os olhos. Os olhos que, de dentro de mim, perscrutaram as minhas entranhas mais profundas. E que agora me olham como ninguém jamais me olhou.

Eu devolvo o olhar e uma sensação de medo e mistério invade o meu corpo: parece que aqueles olhos me conheciam desde tempos remotos. E que sabiam muito sobre mim. Mais do que eu mesma.

Mas como pode ser assim, já que ela é apenas uma recém-nascida?

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Dia Nacional da Luta Antimanicomial

Hoje, 18 de Maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Para celebrar a data, publico no blog uma das várias (e maravilhosas) fotos feitas pela amiga Alice Arida em nosso trabalho pelo sul do Pará. Vocês poderão encontrar mais destas imagens tocantes no livro que estou escrevendo (e que, espero, será lançado no próximo semestre).

caps

Esta fotografia mostra os pacientes do Caps de Tucuruí dentro da kombi “Doido é Tu”, a kombi a serviço do Caps. Eles estavam indo para uma apresentação de quadrilha de festa junina em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF). Foi muito legal vê-los dançarem para as crianças.

Sobre Alice

Alice tem um site onde “expõe” algumas de suas fotografias. Clique aqui para ver.

Sobre a Luta Antimanicomial

O movimento de Luta Antimanicomial surgiu no Brasil no final da década de 1970. Ele foi consequência de um movimento mundial iniciado pelo psiquiatra Franco Basaglia, sobre quem já falei aqui no blog.

A partir da década de 1980, no Brasil, o movimento ganhou força com uma pauta bem definida: o fechamento de hospitais psiquiátricos e a sua substituição progressiva por serviços territoriais de assistência à pessoa com transtorno mental.

Foi nesse contexto que surgiram os Caps, os Centros de Atenção Psicossocial. No meu livro, eu conto a história do nascimento do Caps Casa Machado de Assis, o Caps de Tucuruí, no sul do Pará.

É uma história muito bonita que, infelizmente, não se espalhou pelo Brasil. Ainda hoje, há muito estigma e preconceito quando o assunto é transtorno mental. E não sejamos ingênuos: hospitais psiquiátricos ainda existem.

Por isso, ressalto a importância dessa data aqui no blog.

E que soltemos o louco que existe dentro de nós!

Crônicas da maternidade II

Doze meses completados em abril e nada de dar os primeiros passos. Por onde passamos, as pessoas perguntam:

— Ela já está andando?

Não. Aproveita, dizem alguns. Outros preferem pegá-la pelos braços — levantados, como se todos andássemos assim — e percorrer toda a sala com ela entre as pernas, cantando:

— Dandá, dan-dandá.

É preciso estimulá-la, explicam.

Eu apenas observo. E, observando-a, percebi que ela é o seu próprio estímulo — não precisa que outros a estimulem. Percebi também que ela respeita o seu próprio tempo.

Por que não aprendemos com os bebês?