Grata surpresa

Sempre me perguntei por que existe tanta dificuldade no uso da crase. Leio livros, ensaios, reportagens, e lá está o “a” sozinho, como se tivesse uma única identidade, a de artigo definido, e nada mais. Refletindo sobre isso, penso que só há um motivo para tamanha reclamação a respeito da crase: é um acento exclusivamente feminino. Só pode ser. A crase não deveria ser um acento, deveria ser “a acenta”. A essência da alma feminina, como todos sabem, é mutável, sutil, difícil de captar. Sobretudo num mundo masculino e masculinizado como o que vivemos. Na ausência de compreensão, tipifica-se, enquadra-se, dá-se nome ao que não tem.

Muitas mulheres não compreendem este poder, ou não querem entrar em contato com ele. É razoável, pois as que topam o desafio sabem que o caminho não é fácil. Desde cedo, somos acostumadas a viver como mulheres num mundo masculino ditado pela razão, pela força, pela concorrência, pela velocidade. Pensamos demais com a cabeça, sentimos pouco com o nosso coração e com o nosso ventre. Algumas mulheres, por conta dos avanços na tecnologia dos métodos anticoncepcionais, nunca tiveram a oportunidade de conectar-se com seus ciclos naturais. Ganha-se de um lado, mas perde-se de outro. O que se perde? Não se sabe.

Como os leitores viram, eu estava no Pará realizando o trabalho de campo para um livro que estou escrevendo. Tinha me preparado tanto para a viagem! Estava a mil, fazendo várias entrevistas, conhecendo vários municípios do sul do estado, recolhendo muito material. E eis que, no meio do caminho, me descubro grávida. Foi o boto lascivo? Só as lendas indígenas e ancestrais podem dizer.

Não demorou para que começasse a sentir todos os sintomas típicos do início de gravidez. Enjoo, olfato sensível, muito sono, indisposição. A concentração começou a falhar. Nas entrevistas, as pessoas falavam e eu tinha dificuldade para guardar as informações; ainda bem que a maioria topou o uso do gravador. Minha cabeça começou a pedir arrego, e eu comecei a lutar contra isso, acostumada que estava a ser ativa, idealizar projetos e cumprir as minhas metas. Não era possível que uma viagem tão bem-planejada tinha saído dos trilhos! Eu tentei ser cega e surda, mas o corpo e a alma haviam chegado com tudo.

No dia 5 de setembro, acordei às 6h da manhã em Tucuruí. Acordei sabendo que, naquele dia, ia vomitar. Eu deveria pegar uma estrada até Xinguara, um trajeto de 8 horas de carro. Na verdade, não ouso chamar aquilo de estrada, aquilo é mais um tapa na cara dos brasileiros promovido pelo Estado. Não deu outra. No café da manhã, tomei três goles de café com leite que saíram na primeira parte da viagem; no almoço, dei três garfadas em um purê de batata que tampouco resistiu à segunda parte do percurso. À noite, passei mal, muito mal. Não havia comido nada o dia inteiro, o mal-estar era enorme. Mas pretendia seguir viagem até Conceição do Araguaia, mais algumas horas de carro. Queria terminar meu trabalho de campo; não queria escutar meu corpo, aquela gravidez tinha vindo em hora errada!

Às vezes precisamos da ajuda de outra pessoa para enxergarmos. Quem me deteve foi um homem, grande amigo e médico maravilhoso, como poucos existem no Brasil. Foi ele quem, naquela noite em Xinguara, abriu meus olhos molhados de lágrimas e disse que o melhor para mim era voltar para casa. Foi o que fiz. E foi melhor assim.

Ao chegar em São Paulo, passei dois meses enfurnada na toca, indisposta. Perdi a conta de quantas vezes vomitei, de quantos dias atravessei na cama. Parecia uma eternidade. Ficava pensando: “Então gravidez é isso? Qual a graça? Não vejo barriga nenhuma e só faço vomitar e dormir”. Entrava em sites e fóruns de gravidez na internet para ler o que outras grávidas sentiam. Também para me sentir menos sozinha.

Aos poucos, fui adentrando no mundo da maternidade ativa. A maternidade é inerente a todas as mulheres, nasce com elas. Cabe às próprias mulheres trabalharem para que este traço floresça mais ou menos dentro de si. Quanto a mim, hoje vejo que este período mais frágil dos três primeiros meses de minha gravidez serviram como um sinal amarelo, algo como, “ei, se liga, você está entrando em outra frequência”. Uma frequência mais antenada com as sutilezas da alma feminina. Fiquei mais intuitiva, mais sensível, mais frágil e, por isso mesmo, mais poderosa. Sei que o auge deste processo ocorre no momento do parto. Já parei para pensar que, quando uma mulher está em trabalho de parto, ela também está em seu momento mais frágil e mais poderoso. O poder de dar à luz necessita de fragilidade, delicadeza, sensibilidade, instinto e intuição.

E também de toda uma preparação. Por isso, enquanto o mundo lá fora anda na velocidade da luz, as grávidas se recolhem em suas tocas para formar o ninho. Como diz a psicoterapeuta Laura Gutman, em seu livro A maternidade e o encontro com a própria sombra: “O mundo poderá se transformar. Chegaremos a Marte, Júpiter ou Netuno, mas necessitaremos sempre de nove longos meses para gerar nossos filhos, de outros nove meses para que comecem a se deslocar com autonomia e de longuíssimos anos para que sejam capazes de enfrentar o mundo sem a ajuda dos pais”. É verdade. O homem pode ser capaz de inventar mil e uma peripécias, mas ainda não conseguiu inventar outra forma de criar seres humanos.

Nosso mundo também diz que ter filhos emperra a vida profissional. Da minha parte, ficar grávida só me ajudou a entender melhor as mulheres que entrevistei ao longo de toda a minha viagem pelo Pará. De certa forma, me senti mais conectada a elas, e este sentimento mudou até a minha escrita. Acho que o livro sairia totalmente diferente se não estivesse atravessando todo esse processo maravilhoso.

Os leitores homens irão me desculpar, mas devo escrever alguns posts sobre gravidez, parto e maternidade nos próximos meses. Como eu acredito que homens podem se interessar pelos processos femininos e compreendê-los, não haverá problemas. Por ora, fiquem com uma foto minha de quando estava com 15 semanas (agora estou com 20), tirada pelo papai Lui Pesce, meu amor e grande companheiro.

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