Carajás

Nesta semana estou conhecendo a região de Carajás, onde está localizada a maior mina de ferro do mundo. A formação urbana desse complexo é muito interessante: a “cidade” chamada Carajás é, na verdade, um núcleo habitacional de 6 mil habitantes controlado pela Vale. À primeira vista, esse núcleo pode parecer muito agradável, com suas casas confortáveis e sem muros, suas ruas limpas, motoristas de carros respeitando bicicletas e pedestres, serviço de reciclagem de lixo, limite de velocidade de 40 km/h para veículos, e a floresta amazônica quase nativa rodeando a área… Ao fim de tarde, não é difícil encontrar os macacos sapecas pulando de galho em galho, brincando e provocando humanos.

Mas, como o próprio nome diz, é um núcleo. É artificial. Fica dentro do Projeto Carajás, explorado pela Vale, apesar de o território pertencer ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e ter uma série de restrições ambientais. Não obstante, desde a década de 1980 a Vale tira e tira minério de ferro, da mais alta qualidade, da floresta. Vista de cima, a mina são várias crateras enormes em meio à mata original. Por ano, são 100 milhões de toneladas extraídas.

Daqui, o minério de ferro, após passar por processos de classificação, britagem e peneiragem, é colocado em vagões de um trem enorme que vai direto para o Maranhão. Em um porto em São Luís, é exportado – metade vai para a China.

Não é só. A atual mina de ferro é a maior do mundo, mas está prestes a perder este posto. A cerca de 80 km de Carajás, em um município chamado Canaã dos Carajás, a Vale já foi liberada para explorar mais minério, no que será, daqui a alguns anos, a maior mina do mundo. O projeto se chama S11D e você pode ler mais aqui.

Acho válido se perguntar por que mais exploração, já que a mina existente pode suprir a demanda mundial de ferro pelos próximos 500 anos. Pura ganância, puro capitalismo selvagem: o desmatamento da floresta já começou. E, numa dessas, quantas espécies animais e vegetais o Brasil perde? O que é mais precioso para os brasileiros: o ferro que vai para a China ou o solo de onde floresce todo esse ecossistema? Qual dessas duas opções define a riqueza de um país?

A Serra dos Carajás, onde está o Núcleo Habitacional e a Mina de Ferro, fica a 700 metros de altitude. Descendo 25 km por uma estrada sinuosa, chega-se a uma portaria. Passando por ela, entra-se em Parauapebas, município de 130 mil habitantes. Pebas, como foi carinhosamente apelidada, é uma cidade formada em função da mina. Por conta disso, não há paraenses por aqui – os maranhenses dominam o território. Nessa história, o trem é protagonista: levando minério ao Maranhão, de lá traz seus moradores, muitos esperançosos de conseguir um bom emprego. Sonho que nem sempre se torna realidade…

Pelo menos, Parauapebas é uma cidade. Caótica como toda cidade do sul do Pará. Mas não é um núcleo artificial, onde os muros físicos inexistem, mas os simbólicos abundam. Pebas é o outro lado da moeda. Lá em cima, estão os ricos; aqui, os pobres. Por isso mesmo, aqui há vida.

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