Homenagem a Franco Basaglia

Franco Basaglia

Franco Basaglia. Foto: Reprodução

Franco Basaglia (1924-1980) foi um revolucionário. Para quem não sabe, ele foi o psiquiatra italiano que iniciou o movimento de abertura de manicômios na década de 1970, influenciando vários países pelo mundo. Suas práticas chegaram ao Brasil e foram fundamentais para o movimento de reforma psiquiátrica, que culminou na Lei Paulo Delgado, de 2001, e na formação de várias entidades que buscam uma sociedade sem manicômios.

O trabalho de Basaglia em manicômios começou na província de Gorizia, mas foi no município de Trieste onde ele conseguiu, por uma série de fatores políticos, econômicos e sociais, abrir a instituição. Sua prática não era apenas técnica, isto é, ele não pretendia apenas destruir o manicômio e criar novas estruturas de apoio ao “doente mental”. Sua vontade ia mais além – ele queria mostrar à sociedade as contradições dela mesma. De que forma?

Há muitas. Uma delas é devolvendo os loucos às ruas e fazendo os moradores perceberem que os problemas desses loucos eram os mesmos que os seus. Os loucos queriam casa, comida, trabalho, família, amigos. Então, por que estavam internados – eu diria presos – no  hospício? Vê-se que o problema do manicômio é muito mais político do que médico. O manicômio não existe para curar, mas para controlar.

Li recentemente um livro de Basaglia, A psiquiatria alternativa: contra o pessimismo  da razão, o otimismo da prática, que reúne uma série de conferências que ele deu quando veio ao Brasil, em 1979. É um livro fascinante, por isso decidi reproduzir aqui alguns trechos da fala dele, que era um psiquiatra inconformado, um homem que não sabia atuar de outra maneira a não ser como ser humano. Em outras palavras: não era doutor, era médico.

Com vocês, Basaglia:

“Quando o psiquiatra entra no manicômio, encontra uma sociedade bem definida: de um lado, os loucos pobres; de outro, os ricos, a classe dominante com os meios para tratar os pobres doentes loucos.”

“Eu não vejo outra finalidade no manicômio senão a de internar uma pessoa para garantir a segurança da sociedade.”

“Vivemos numa sociedade que se parece com um manicômio, e estamos dentro desse manicômio, somos os internados e lutamos pela libertação.”

“Quando o médico aceita a contestação, quando ele aceita ser um dos polos da dialética, aí a medicina e a psiquiatria se tornam libertadoras.”

“Vimos que, a partir do momento em que dávamos uma resposta a um pobre internado, ele mudava completamente sua posição. Tornava-se não mais um louco, mas um homem com quem podíamos nos relacionar.”

“Quando levantávamos o problema de dar alta a uma pessoa pobre que não tinha dinheiro, não tinha casa e nem família, muitas pessoas percebiam que estavam nessas mesmas condições: sua situação era igual à do doente mental.”

“Nós salientamos hoje que cada situação que nos é apresentada é uma crise vital, e não uma esquizofrenia, uma situação institucionalizada, um diagnóstico.”

“Eu não sei o que é loucura.”

“Creio que uma das principais prevenções da loucura e da doença mental é a luta contra a miséria. E acho muito difícil que em um bairro pobre se saiba quem é louco e quem não é louco.”

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Sertão brasileiro

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Como o internauta deve ter percebido, tempo de atualizar o blog foi o que eu menos tive na viagem. Mesmo assim, gostaria de expor algumas impressões sobre o que comumente se chama “sertão brasileiro”, ou o interiorzão desse país – na verdade, desses países, desses brasis de múltiplas e tão distintas faces.

Saindo de São Paulo, essa megalópole caótica e ao mesmo tempo apaixonante, cheguei a Marabá, um pólo urbano relativamente grande do sudeste paraense, com 230 mil habitantes, segundo o IBGE. O aeroporto deixa muito a desejar se levarmos em consideração a importância do município para a região.

Não conheci a cidade, pois logo parti de carro para Xinguara, 400 km ao sul de Marabá. A viagem foi realizada em 7 horas de muito enjôo para mim, pois a estrada é buraco atrás de buraco. Uma parte dela, entre Eldorado dos Carajás e Sapucaia, está em estado crítico. O trecho entre Marabá e Redenção – que fica mais ao sul de Xinguara – foi federalizado em 2010, mas até agora recebeu poucos investimentos, e, diz-se, o que chegou foi desviado.

Em Xinguara – um município recente, com pouco mais de 30 anos de existência e 40 mil habitantes –, me deparei com uma realidade parecida com a do interior de São Paulo. Grandes fazendas de gado e a cultura do rodeio, pessoas vestindo chapéus de abas largas, cintos com fivelonas, calça jeans justa e botas de vaqueiro. Uma região muito desigual, em que ou você é um rico fazendeiro ou vive em casas de madeira em ruas de terra batida.

Acho importante esclarecer que a região onde estou trabalhando tem pouco a ver com o imaginário que gira em torno da Amazônia, de grandes florestas, rios e populações indígenas. A região do sudeste e sul do Pará é imensamente explorada desde o século 19, começando com o ciclo da borracha, passando por garimpos e castanhais e chegando na pecuária de hoje em dia. É também uma região riquíssima em minérios, tanto que foi palco do garimpo do ouro de Serra Pelada, na década de 1980, e ainda hoje é palco da extração de ferro na mina de Carajás, a maior do planeta. O ferro de lá pode abastecer o mundo por centenas de anos.

Por conta desses e outros episódios, a região é a mais desmatada da Amazônia. Vê-se pouca floresta, e o que se vê está bem judiado.

Minha próxima parada foi Tucuruí, cerca de 700 km ao norte de Xinguara – foi outro dia inteiro de viagem, 9 horas dentro do carro. A estrada entre Marabá e Tucuruí é um pouco melhor do que a entre Marabá e Xinguara, e é possível ver a linha de ferro por onde passam os trens que transportam passageiros e também escoam o ferro de Carajás (o minério desemboca em um porto no Maranhão, e de lá ganha o mundo, muitas vezes para voltar mais caro ao Brasil, na forma de bens de produção e bens de consumo).

Tucuruí é um município antigo na região, fica 350 km ao sul de Belém e hoje conta com 100 mil habitantes. É outro pólo econômico, já que conta com uma usina hidrelétrica, a quarta maior do mundo e a maior 100% brasileira – já que Itaipu é binacional. A UHE Tucuruí tem potência de 8.300 megawatts e só perde para a chinesa Três Gargantas (19.000 megawatts), a brasiguaia Itaipu (14.000 megawatts) e a venezuelana Guri (10.200 megawatts).

A usina começou a ser construída na década de 1970, em plena ditadura militar. Seu reservatório inundou milhões de quilômetros quadrados de floresta, forçou o deslocamento de milhares de pessoas, de municípios e áreas indígenas, e mudou completamente o ecossistema, deixando populações sem suas tradicionais fontes de subsistência.

Interessante pensar que hoje, quase trinta anos após o fim da ditadura, o Brasil volta-se às mesmas questões, desta vez com Belo Monte – e outras usinas que continuam a ser construídas na Amazônia, sem o destaque que Belo Monte tem, talvez pelo porte dela. Belo Monte, se finalizada, vai superar Tucuruí e ganhar o posto de terceira maior hidrelétrica do mundo.

Com que custo? De que forma Belo Monte está sendo construída? Construir uma hidrelétrica é realmente a melhor forma de produzir energia? Que tipo de desenvolvimento Belo Monte está trazendo para a região de Altamira? E para onde vai a energia de Belo Monte? É para a população pagar menos ou não pagar por essa energia? Ou servirá para subsidiar grandes multinacionais, como acontece em Tucuruí? Que tipo de apoio estão tendo as populações, não só as indígenas mas as que compõem o quadro multicultural da Amazônia, que serão afetadas pela construção de Belo Monte? E os danos ao ecossistema?

Na década de 1970, Tucuruí foi construída com muitos danos às populações e ao ecossistema, mas o respeito aos direitos humanos na época não era palavra de ordem do governo. Hoje é. Mas essa palavra fica apenas no papel e nos discursos – a política para a Amazônia em nada mudou de lá para cá.

E por que o que acontece nas Amazônias, e não acontece pouca coisa por lá, tem pouco efeito sobre a vida dos outros brasileiros, concentrados no litoral e no eixo sul do país? Creio que a resposta para esta pergunta é complexa e envolve muitos aspectos, e penso dar apenas uma pista para ajudar nestas reflexões: quando digo que vou para o norte do país, para Tucuruí por exemplo, a maioria de meus conhecidos não sabe como reagir, por puro desconhecimento; nunca ouviram falar em Tucuruí, assim como eu um dia nunca tinha ouvido falar em Tucuruí. Quando estou no norte, sou bem-recebida, mas não deixo de ser uma estrangeira. É como se fossem países totalmente diferentes. E fico me perguntando se, um dia, será possível superar esse abismo.