Memória viva de um passado recente*

“A ausência é um estar em mim”, já dizia Drummond. Ela não pode ser roubada, usurpada, violada, machucada, espancada, torturada. Não desaparece. Não morre.

Gustavo Germano preferiu outro poeta, o inglês John Berger. “O verdadeiro conteúdo de uma / fotografia é invisível. Porque / não deriva de uma relação com / a forma, mas sim com o tempo.” Tais palavras encontram um fino sentido na obra do fotógrafo argentino.

Há pelo menos nove anos Germano se dedica a um trabalho de resgate da memória coletiva sul-americana. Ele, que é uma vítima indireta da ditadura militar argentina (1976-1983), logrou unir este componente pessoal com a paixão pela fotografia. O resultado está na série de fotos “Ausências”, que já ganhou mostra na Argentina e, no Brasil, esteve em exposição no prédio do Arquivo Público do Estado de São Paulo até abril. Veja aqui o site do fotógrafo.

gustavo

Vítima indireta da ditadura argentina, Gustavo Germano (1º à esq.) também fez foto com os irmãos

Dupla imagem

Em 1976, Germano perdeu Eduardo, um de seus três irmãos, levado pela ditadura aos 18 anos. Caçula, Gustavo tinha então 12 anos. Trinta anos depois, já fotógrafo, ele começou a contatar famílias de mortos e desaparecidos pelo regime militar em busca de fotos antigas, de arquivo pessoal, onde a vítima aparecia. Sua ideia era compor a mesma foto, no mesmo local, e, desta vez, sem a pessoa amada.

A princípio, foram feitas e expostas imagens de famílias argentinas. Com o passar do tempo, veio a vontade de ampliar o trabalho. Há dois anos, Germano passou a contatar famílias brasileiras, cujas fotografias compõem a maior parte da exposição na capital paulista. E ele sente que ainda não concluiu sua tarefa. “Gostaria de realizar séries ampliatórias e complementares entre si nos outros países do Cone Sul que fizeram parte da Operação Condor, como Chile, Paraguai, Uruguai”, diz ele.

Somos todos irmãos

Na Argentina, Germano trabalhou com 15 famílias, e, no Brasil, com 12. Ele chegou a elas por meio de associações de direitos humanos e de parentes de mortos e desaparecidos. No caso brasileiro, o fotógrafo ainda contou com a colaboração da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

“Por meio deles nós fizemos todo esse longo trabalho de contatar os familiares, indagar, encontrar fotografias que pudessem ser refeitas, tanto na parte técnica quanto na operativa, já que todas as pessoas precisavam concordar em estar na imagem”, conta.

Nesse processo, não houve distância que o intimidasse. Germano percorreu o Brasil em busca de histórias familiares como a sua, e as encontrou em cidades tão afastadas quanto Recife, Belo Horizonte e São Leopoldo (RS).

O fato de ser estrangeiro em uma terra de dimensões continentais tampouco o acuou. “Minha aposta consistia em pensar que o central era me comunicar com outros familiares igualmente vítimas das ditaduras, e para isso não existe fronteiras. Somos todos irmãos”, afirma.

Mas o objetivo de seu trabalho não se restringe à memória das vítimas, diretas ou indiretas, dos regimes militares. O próprio fotógrafo o define de forma diferente. “Esta exposição pretende ajudar as pessoas a terem consciência do desaparecimento forçado, e que elas busquem esta compreensão por meio da emoção. A emoção te permite sentir uma empatia. Se você chega a um compromisso através da emoção, este compromisso é muito mais poderoso do que o firmado através da intelectualidade. É a aposta deste trabalho.”

E ela tem sido bem-sucedida. Germano já expôs mais de 40 vezes, em dez países (Argentina, Espanha, Itália, Alemanha, França, Suíça, Cuba, Colômbia, Chile, Uruguai e Brasil). Foi o seu jeito de encontrar e cumprir o compromisso com a verdade e a justiça na América do Sul.

*Este texto foi originalmente publicado na revista Clichetes. Você pode ver aqui: http://clichetes.com.br/memoria-viva-de-um-passado-recente/

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Aniversariante do mês

A 16 de maio de 2012, entrou em vigor a Lei de Acesso à Informação, apelidada de LAI. O processo que resultou nesta vitória histórica havia começado dez anos antes, quando algumas entidades da sociedade civil criaram o Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, hoje composto por 25 destas associações – entre elas, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), a Conectas e a Transparência Brasil.

Em 2009, com a pressão deste grupo, o Executivo enviou ao Congresso um Projeto de Lei (PL), que ficou dois anos tramitando na Casa até sua aprovação, a 25 de outurbo de 2011, e a posterior sanção pela presidente Dilma Rousseff, a 19 de novembro. Em seis meses, entrava em vigor a Lei de Acesso à Informação.

A LAI estabelece que todos os poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) de todas as esferas (Federal, Estadual e Municipal) devem cumprir regras mínimas de transparência ativa – como, por exemplo, disponibilizar informações em seus respectivos sites – e passiva – como responder, de forma positiva ou negativa, a todos os pedidos de informação, por parte dos mais variados setores da sociedade, pessoas físicas ou jurídicas.

Para celebrar um ano da lei, a Abraji e outras entidades realizaram, em São Paulo, um seminário com debatores envolvidos na construção da LAI e, hoje em dia, com a sua aplicação. Os participantes foram Thiago Herdy, repórter do jornal O Globo e coordenador da Abraji; José Eduardo Romão, da CGU (Controladoria Geral da União); Lucia Nader, da Conectas; Paula Martins, da Artigo 19; Claudio Abramo, da Transparência Brasil; e Gustavo Ungaro, da CGA (Corregedoria Geral da Administração do Estado de Sâo Paulo).

De todas as falas, é possível extrair algumas impressões que preocupam. A Abraji, por exemplo, elaborou um questionário e o repassou a 87 jornalistas que trabalham de perto com a LAI. Mais da metade destes repórteres relataram que tiveram problemas com as informações fornecidas ou não fornecidas – estavam incompletas ou não condiziam com o que havia sido solicitado, por exemplo.

Por outro lado, as entidades Conectas e Artigo 19 relataram que grande parte de seus pedidos não foram sequer respondidos, ou respondidos parcialmente. Neste último caso, é possível entrar com recursos – algo que só alguém que tenha facilidade com termos jurídicos e técnicos pode fazer de forma satisfatória, já que os formulários da LAI são, muitas vezes, verdadeiros labirintos. A Conectas diz estar há um ano entrando com recursos e aguardando uma resposta do MRE (Ministério das Relações Exteriores).

Solicitações que têm o acesso negado podem, em última “instância”, para utilizar uma terminologia jurídica, “apelar” para a CGU, que, pela lei, tem cinco dias para responder ao imbróglio. A Controladoria, por sua vez, reclama do enorme leque de órgãos públicos com os quais tem que lidar no âmbito da LAI – já que os pedidos podem ter sido negados pela Casa Civil da Presidência, pela Anvisa, pelo Ministério da Educação, e por aí vai.

Muitos jornalistas ouvidos pela Abraji disseram que a CGU, longe de responder no prazo de cinco dias, fica indefinidamente com os pedidos. Estes de perdem. Os argumentos “informação sigilosa” e sigilo por motivos de “segurança” são usados, talvez, de forma indiscriminada para negar informações. Para a Transparência Brasil, esta situação tende a piorar.

Um dado curioso apresentado tanto pela CGU quanto pela CGA diz respeito aos requerentes – a maioria é composta de servidores, pesquisadores, estudantes, professores. Os jornalistas ocupam uma parcela mínima dentro dessa gama de pessoas da sociedade civil que buscam informações para atender aos mais variados tipos de interesses.

Por fim, é preciso ir aos rincões do nosso Brasil. É lá que encontramos os casos emblemáticos, é lá que buscamos entender como a lei funciona. Este caso foi relatado no seminário: um agricultor do semiárido nordestino, sofrendo com a seca, quis saber, via LAI, os horários e itinerários dos caminhões pipa. Alguém sabe o fim da história? Pois é, tal agricultor passou a receber represálias.

Se em São Paulo, e da minha pouca experiência com a LAI posso dizer, já é complicado receber a informação de forma satisfatória, que dirá nos locais onde o que vigora é a lei do mais forte.

Há muito chão para caminhar ainda.

Para saber mais:

Texto da Lei de Acesso à Informação

Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas

Relatório de Desempenho da Lei de Acesso a Informações Públicas: Avaliação, Sugestões e Críticas do Uso da Lei por Jornalistas – Abraji

Gastronomia paraense*

Diz o senso comum que comida de brasileiro é arroz com feijão, pontualmente ao meio-dia, de preferência. Diz a lenda amazônica que a comida chora. Uma pequena esfera escura pende do alto de uma palmeira, 20 metros acima do solo, alimento para a raiz e o tronco fino e comprido, encravado em um pedaço de terra à beira do rio.

O rio, afluente de outro curso d’água, imiscui-se em uma intrincada rede que forma a maior bacia hidrográfica do planeta – trajetória que começa com uma gota de degelo em uma montanha perdida dos Andes e termina com o deságue, no oceano, de 20% da água doce do mundo.

A esfera escura também é uma gota num mar arroxeado que chega à noite ao porto de Belém, em enormes cestas carregadas por negros hercúleos, que não dormem. O ritual se repete desde tempos imemoriais. A capital do Pará é o eldorado por onde passa 87% da produção nacional da fruta que chora – o açaí.

Desta bolinha parecida com a jabuticaba, extrai-se o sumo que servirá de matéria-prima para a confecção do creme.

Creme fresquinho e acompanhado de peixe e farinha grossa de mandioca, como manda o costume. Para colher o açaí, os paraenses usam a peconha, uma espécie de cinto feito com as próprias folhas da palmeira e amarrado aos pés, para ajudar na subida da longa árvore. Uma vez em cima, é só arrancar o fruto e deixá-lo cair, escorregar, escorrer – o açaí chora, e de suas lágrimas sai o líquido que dá razão de sua existência.

Do choro da mandioca brava também desponta vida, e este é um ensinamento indígena que se perdeu no tempo. Quatro ou cinco dias, porém, são suficientes para fazer o tucupi, um molho ácido de cor amarelada extraído do tubérculo e parte integrante do cotidiano da culinária paraense.

Descasca-se e rala-se a mandioca, que é introduzida em um tipiti, um tipo de espremedor feito de palha trançada e usado para secar raízes. O líquido verte, em mais um ritual amazônico, e é colocado para descansar por alguns dias, processo que irá separar o amido – conhecido como goma – do molho. Neste ponto, um veneno está à espreita. O veneno do suco da mandioca brava. Ele só desaparece depois de horas fervendo no fogo, para dar origem ao tucupi.

Mas uma origem apenas não satisfaz. Reza a lenda indígena que Jacy (lua) e Iassytatassú (estrela d’alva) resolveram visitar Ibiapité (centro da terra), em uma certa madrugada. Deixaram então Ibacapuranga (céu bonito) e, após descansar sobre um Iupê Jaçanã (vitória-régia), começaram a baixar às profundezas. Quando se preparavam para descer o Ibibira (abismo), Caninana Tyba mordeu a face de Jacy, que, ao sentir a dor, derramou amargas lágrimas sobre uma plantação de mandioca.

Sua face ficou para sempre marcada, enquanto suas lágrimas penetraram no interior do tubérculo, misturando-se ao líquido interno. Foi então que nasceu a mandioca brava, da qual se extrai o tucupi. Com o passar do tempo, índias anciãs e sua sabedoria milenar descobriram que, ao expor o suco ao sol, destruía-se a força do veneno que correu dos olhos de Jacy e se impregnou na mandioca.

Tão intenso quanto o tucupi é o seu par inseparável, o jambu. Hortaliça conhecida como “agrião do Norte”, o jambu está presente em todas as mesas paraenses, mergulhado no molho feito da mandioca brava. Um completa o outro, pois, ao ser mastigada, esta folha verdinha, com aparência inocente, produz um efeito anestesiante instantâneo, que se alastra por toda a boca. Quem diminui o barato, sem cortá-lo por inteiro, é o tucupi.

Dizem as línguas maliciosas que o jambu é afrodisíaco. Outras línguas mais medicinais lembram seu poder de aliviar dores de dente e de garganta, sua força para combater febre e asma. Mas, para além de suas capacidades, a hortaliça é planta milenar, vista em inúmeros pratos típicos da região amazônica.

Combinada com tucupi, goma de tapioca e camarão seco, transforma-se no tacacá. Esta iguaria é servida espumando em uma cuia, e diz a tradição que deve-se tomá-la sob sol a pino. Sobrepõe-se, assim, o quente no quente.

Carne de pato é outro antigo acompanhamento para a dupla jambu e tucupi. O animal é amplamente consumido no Pará, desde antes do período colonial. Nesta época, era comum ver pessoas disputando um jogo que consistia em abater um pato amarrado a um toco de pau. Aquele que conseguisse decepar a cabeça da ave a levava para casa como premiação. Os que fracassavam em suas tentativas “pagavam o pato” ao vencedor.

Vem daí a expressão que significa “sofrer as consequências de algo”. Não sofria, porém, o felizardo que carregava a ave para casa para fazer um dos mais tradicionais pratos nortistas brasileiros – o pato no tucupi.

Floresce da terra o alimento do homem. Os pratos têm história, os ingredientes são lendas vivas e toda uma rica cultura permanece nas zonas sombrias e indefinidas de um senso comum que diz que comida de brasileiro é arroz com feijão. Como resposta, a lenda amazônica, imponente, lembra que, há tempos, o alimento chora.

* Este texto foi originalmente publicado na revista digital Clichetes. Veja aqui: http://clichetes.com.br/gastronomia-do-para/

Mil vozes

Há cinco anos, o Brasil perdia Austregésilo Carrano. Morreu aos 51 anos este dramaturgo e escritor, vítima de um câncer cuja origem provável devia estar nos tantos e tantos de cigarros fumados diariamente. Mas sua causa de morte bem poderia ter sido outra, em um tempo muito anterior ao ano de 2008.

austryAos 17 anos, Austry, como era então conhecido, vivia a rebeldia de sua adolescência nas ruas de Curitiba, na companhia dos amigos e das gatinhas; de vez em quando, dava os seus “pegas”. O ano era 1974 e o país vivia em plena ditadura militar. Não havia ainda o perigo da cocaína e do crack, os juízos morais da sociedade recaíam sobre a maconha. “Maconheiro mata a mãe para conseguir a droga”, eram as manchetes dos jornais.

Foi então que o pai de Austry descobriu, na mochila do filho, um pacotinho da erva, e, mais por ignorância do que por má fé, seguiu os
conselhos de um amigo policial e internou o menino em um hospital psiquiátrico – única opção de “tratamento” em uma época na qual o debate sobre drogas era tabu.

Foram três anos de passagens por quatro instituições de recluso destinadas aos chamados “doentes mentais”. Austry nada tinha de síndromes de loucura, mas foi submetido a eletrochoques, castigos e outros “tratamentos” para supostamente curar viciados.

À beira da morte, sobreviveu.

E contou sua história no contundente “Canto dos Malditos”, livro que abalou estruturas e chocou a todos que o leram. Pela primeira vez, um ex-interno falava, levantava a cara e a voz, contra as atrocidades cometidas nos manicômios. Um mês após sua publicação, em março de 1990, já em plena democracia, a obra foi censurada. Carrano, que também foi o primeiro ex-interno a mover uma ação indenizatória contra médicos psiquiatras por erros de diagnóstico e tratamentos torturantes, vendia os exemplares nas ruas.

Um destes caiu nas mãos na cineasta Laís Bodanzky. E, em 2000, a trajetória de Carrano, que foi e continua sendo a trajetória de milhares de brasileiros, chegou às telas de cinema, no premiadíssimo “Bicho de Sete Cabeças”, estrelado por Rodrigo Santoro, Othon Bastos e Cássia Kiss.

Tentei comprar tanto o livro quanto o filme, mas, para minha infelicidade, estão esgotados no fornecedor.

Cheguei em paz e salvamento

Queridos internautas,

Estreio este blog e explico sua existência. É simples: como jornalista e cientista social, sinto a necessidade de ampliar o conhecimento. Uma sabedoria que não vem de cima, mas do sentido inverso. Ela caminha de tênis surrado pelas ruas das metrópoles brasileiras; anda de voadeira rio acima para buscar raiz para o jantar; pisa na terra batida com a crosta dura do pé para dar de beber à família; dança ao som dos tambores e do pandeiro; come com as mãos; olha pela primeira vez; sorri feliz com a volta do marido; e transborda alegria nos olhos do filho. Ela é a crônica do cotidiano, da terra e do asfalto.

Não digo que o internauta encontrará de tudo por aqui; mas um pouco do que tenho a oferecer através do meu olhar. Reportagens, crônicas, fotografias, entrevistas, resenhas, impressões e reflexões, relatos de viagens e de vidas.

Como escreveu certa vez Graciliano Ramos, “cheguei em paz e salvamento”.

E que assim seja.